Poesias porteñas.
Janeiro / 2008
Parque Maldivas
No parque, sento ao sol.
Escrevo minha primeira poesia porteña.
Ficará boa?
Continuará no caderno depois de acabada?
Ou enfeiará o chão já meio sujo –
bola de papel amassado
entre as rodas de uma bicicleta qualquer?
Há tanto para transformar em palavras:
as folhas das árvores desconhecidas
ondulando com o vento frio
ora esbranquiçadas, ora verde-escuro;
crianças em velhos balanços de madeira,
cada subida e descida um gemido agudo das correntes enferrujadas;
um gritinho ecoando numa língua estranhamente familiar;
bolas, patins, passarinhos, lanches, mate;
olhares enviesados e curiosos.
O que ver? Que parte da realidade?
Como destrinchar a beleza de uma tarde banal,
com seus velhos e cachorros e nuvens e pedras gastas e muros pichados.
Um menino descalço se prepara para chutar a gol,
uma chica linda passeia distraída,
o azul pálido do céu se adensa anunciando a noite que demora a cair,
antenas retorcidas começam a piscar no alto pesados prédios de concreto.
Apesar do murmurinho de carros e pessoas,
o silêncio cresce –
por um momento tudo se cala,
e da vida que corre sem sentido,
brota uma coisinha qualquer,
ínfima harmonia imaginada,
entre infinitas notas dissonantes.
XXX
Dez quadras
Quando venço a passos largos as distâncias da noite
atravessando a cidade que dormita
rumino os pesadelos que não tive
e às vezes me engasgo com pedaços de sonhos.
Engulo então a matéria bruta do desterro,
sinto o gosto amargo das esquinas desconhecidas,
fecho os olhos e avanço no escuro
guiado pelos ruídos incessantes
- trechos de músicas, conversas cortadas, caminhões de lixo –
Não procuro nada: já sei que não encontrarei.
XXX
[sem título]
Há noites em que penso em verso;
caladas as discussões internas,
emerge cada palavra não sei de onde
e pressiona o corpo todo até sair pela caneta.
Se não as escrevo, viram um tipo estranho de tristeza;
um sentimento mudo, lento, viscoso,
que se acumula na boca do estômago.
Quando as palavras são muitas e a minha teimosia é maior,
elas encontram o caminho até os olhos e escapam;
querem ser a qualquer custo,
precisam desesperadamente entrar no mundo,
colar nas coisas, construir sentidos, estabelecer relações.
Tenho que controlá-las na rédea curta,
senão se atropelam umas às outras,
escorregam pelas paredes da linguagem,
multiplicam-se desesperadas,
até se esgarçarem em fiapos pobres,
que já não dizem mais nada;
Tão coerentes e fortes lá dentro, tão vazias e raquíticas do lado de fora.
Certas madrugadas tenho a ilusão de pensar nos versos mais lindos do mundo.
Só consigo desfazê-la quando tento escrever.
terça-feira, 24 de junho de 2008
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