sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Escrevi isso (prosa? poesia?) há alguns anos, mas achei que tinha perdido. Estou prestes a deixar o meu trabalho e ontem, enquanto deletava alguns arquivos pessoais do computador da empresa, acabei encontrando esse texto. Aconteceu então algo muito raro - reli e não achei tão ruim assim. Por isso resolvi reproduzir nesse novo Blog.


O menino e o pião

O menino tem um pião que gira, gira e gira. Com a mão aberta, a palma voltada para cima, ele sustenta o giro do pião.
Os olhos tristes de tão serenos, o rosto frágil de tão pequeno, o corpo miúdo perdido dentro da enorme e sufocante camisa, a cabeça enterrada num angulado chapéu de papel, tudo gira em volta do pião escuro.
Girando por dentro, o menino se cala. Observa. Respira. O pião como espelho, único amigo verdadeiro.
Do giro à náusea, da náusea ao vômito.
Arrebatamento, estranhamento, esta é a essência do movimento, eixo do pião, espírito do menino.
Sobre a ponteira de metal, o pensamento gira, gira e gira. Nenhuma conclusão, nenhuma verdade, nenhum conceito vão, todos eles expulsos pelo giro do pião. Enjoadas, as idéias se curvam vomitando no chão.
Só o menino entende o movimento, mas não ri cruelmente desdenhando das idéias, pois sabe que terminado o giro do pião elas logo voltarão, trazendo lágrimas aos olhos tristes que sofrem com esta compreensão.
Liberdade! Movimento! Assim grita o menino por dentro. Neste grito não há alegria nem esperança. A realidade reduz o movimento à estagnação, sem movimento o pião não se sustenta cai. O menino está fadado a derrota. Seu movimento cessará, o mundo parará de girar, e como o pião, ele também cairá.
Por mais que venham outros meninos e outro piões, por mais que o mundo pareça girar, a tristeza lenta e sombria que vem da compreensão da efemeridade do movimento jamais se dissolverá. Esta tristeza é como uma saudade impossível e imaterial. Saudade do eixo, de onde se observa a realidade girar, girar e girar. Perdido o eixo, observar de onde? E por que? Para chegar a meia dúzia de estúpidas verdades contingentes?
Olho o menino prestes a perder seu espírito e choro, lembrando da liberdade perdida. Eu, menino crescido, deixei meu pião cair, perdi o movimento, perdi o eixo. Não sei mais de onde olhar para este mundo estagnado, que já me é familiar demais.

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