quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Poesia para lagostins

Peixinhos dourados só voam depois de mortos
Para William e Fátima

No meu aquário miúdo se espremiam dois lagostins
- Fátima e William - batizei
em homenagem ao casal do Jornal Nacional
Crustáceos violentos, viviam caindo na porrada
e a Fátima sempre levava a melhor
Mas não foi por isso que me desfiz deles
suas brigas conjugais até enchiam meu espírito
com a alegria fugaz que os humanos sentem
diante do sofrimento alheio.

Não, o problema é que eram muito cagões
Talvez sub-repticiamente tentassem transformar o aquário num pântano
Turvando a água com pedaços de merda que ora boiavam, ora afundavam

Lutei
Trocava a água todos os dias, pela manhã e à noite
mas era uma batalha inglória
Além disso, tenho mais o que fazer
não podia passar o resto da existência limpando a merda da Fátima e do William

Cogitei comê-los
Vi os dois fritos, sobre uma folha de alface
Poderia brincar de restaurante francês
e remediar a perda dos bichinhos com um jantar gostoso

Perguntei então ao oráculo contemporâneo: "como cozinhar lagostins?"
O Google, no entanto, condenou minha improdência gulosa
"É necessário", ele disse, "que os crustáceos provenham de uma criação confiável e limpa"

Minha criação, infelizmente, não era nem uma coisa nem outra

Como último recurso
Voltei ao camelô de aquário do Largo do Machado
Troquei a Fátima e o Wiliam por um quarteto de peixinhos dourados

Meus novos companheiros não tinham nome
pois nomes são feitos para identificar coisas diferentes
e peixinhos dourados são todos iguais - no máximo me referia a eles como 1, 2, 3 e 4

Duraram três dias
depois apareceram mortos, na superfície leitosa da água

O que fazer com os cadáveres?
Matutei a questão por dois dias
mais por preguiça de que por dificuldade de pensar na resposta
O quarto começou a feder
e o fedor sussurou: "atire os peixes pela janela"

Foi o que fiz

Com o indicador e o polegar, peguei o rabinho do 1
as escamas douradas se soltaram quase todas na água
deixando a pele branca por baixo

Hesitei um instante
Olhei o sufocante céu azul
e as ondas que o vento formava na amendoeira lá embaixo
Mirei na copa da árvore
O peixe morto voou pela janela
e acabou se espatifando no asfalto

Depois da primeira desova, as seguintes foram mais fáceis
Só o último peixinho dourado
um que ainda conservava muitas escamas
caiu certinho sobre a folha verde-escuro
e formou um contraste vivo à luz do sol

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